A importância da jornada

Na vida, algo que tende a acontecer é o foco na chegada. O foco na culminação de todo o trabalho feito e a esperança de que a conclusão de um projeto importante traga uma sensação de realização e contentamento, mas isso quase nunca acontece.

No budismo tibetano existe a tradição de criar mandalas, – desenhos geométricos com areia que representam o cosmos – criadas ao longo de várias semanas por monges, são uma imagem muito detalhada, criada a pouco e pouco, grão a grão. Quando a mandala está completa, após semanas de trabalho intensivo, é destruída num ritual em que não sobra nada. Este exercio mostra a brevidade no mundo, que é representado pela mandala. Tudo está em constante mudança, tudo o que o ser humano construir será eventualmente destruído. A prática ensina os monges a não se prenderem à ideia da mandala terminada como objetivo, atitude que levaria a uma devastação emocional quando o este fosse destruído, centrando o foco na aceitação do ciclo da criação e da destruição porque quando se procura validação pessoal no “produto final” o resultado será a desilusão.

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Na minha experiência enquanto músico, a satisfação na atividade musical tem de vir do processo, isto porque o foco somente na exibição musical levará à criação de tensão e a um sentimento de vazio no final, quando as expetativas de uma exibição perfeita não são alcançadas. Criando um paralelismo é como se o trabalho fosse representado pela crição de mandalas e a apresentação fosse a sua destruição, no final não há nada a que nos possamos agarrar, não ficou perfeito mas temos de seguir em frente, para a próxima criação, para o próximo processo.

Como diria Leonardo da Vinci:

Nunca se vai ficar completamente satisfeito com uma música, nunca se vai chegar chegar ao fim da viagem.

A chave está em aceitar este ciclo de criação e destruição e viver no presente, reconhecendo que o futuro não tem existência além da forma de pensamento. E para isso é necessário escapar desta jaula de realidade conceptual e depositar significado na única coisa pela qual a vida é constituída, o presente. De qualquer modo, esta linha de pensamento não invalida a desvalorização do futuro, que é uma consequência do momento presente; e o mesmo se aplica ao passado, que tal como o futuro estão dependentes do presente, porque uma ação agora, cria o passado e determina o futuro.

 

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2 Comments

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  1. Claro que o caminho para chegar ao objetivo é importante e que é importante perceber que o que criámos vai ser destruído, mas teremos sempre de ter presente o resultado final e é bom termos satisfação com isso também. Outra coisa interessante é que o que criamos vai ser destruído e provavelmente a espécie humana um dia, mas tudo o que fazemos por minimo que seja, fará o grande, o grande? Sim, o universo. Porque sem as pequenas coisas o grande não existiria. Portanto, devemos sempre olhar para o resultado final e tê-lo como referência, mesmo que venha a ser destruído porque só com a sua existência é que haverá algo. E esse resultado por insignificante que seja pode mudar um número desta grande fórmula que é a existência. E temos de tentar obter sempre melhores números.

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  2. Upāsaka Erick June 23, 2017 — 3:29 pm

    Interessante esse exercício de destruição da mandala pelos monges tibetanos, não conhecia. Parece ter um efeito muito bom para lidar com as mudanças e aceitar a realidade.

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